velho tarado |
depois de velho, continuou tarado. |
O cinema só é possível graças ao fenômeno conhecido como pernamência retiniana. O que isso quer dizer? É o tempo que uma imagem permanece em nossos olhos até que uma nova se forme. E é assim que 24 frames parados se transformam em um segundo em movimento.
Algumas imagens tem o poder de ir além desse tempo. Elas saem rapidamente da retina e se fixam na nossa cabeça. Ali assentam. Podem virar um incômodo. Podem virar inspiração. Em ‘Matadores’, filme de 1997, de Beto Brant, Murilo Benício caminha pelas ruas do Paraguai. Interage com pessoas comuns, conversa, pechincha, paquera, fala besteira. A câmera sempre na mão, imprimi agilidade. É uma seqüência diferente do resto do filme, filmado em plano-contraplano. Existe uma liberdade, um frescor.
Isso deve ter ficado num canto da mente de Brant. Seus filmes cada vez menos trabalham no tradicional plano-contraplano. Eles preferem voar para outra direção. Buscam a simplicidade daquela cena de ‘Matadores’. ‘Crime delicado’ e ‘Cão sem dono’ foram ensaios. O melhor resultado você vê em ‘Receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’. Filme que se libertou até do texto original de Marçal Aquino. A história está lá, é a mesma do livro. Mas é contada em outro ritmo, com outro tesão, em outra linguagem.
O trabalho com lentes angulares. Em cenários amplos. Sem marcações tão fixas. Visa a libertação. Dos atores. Da fotografia. Da direção. Visa também o mergulho. Do espectador. Em descobrir a história aos poucos. Se deixar levar pelas águas dos rios da amazônia. Admirar o corpo de Camila Pitanga. E se o espectador aceitar a proposta, ficará satisfeito com a história de amor, loucura e violência.
Mas essa liberdade tem seu preço. A nouvelle vague francesa e o cinema novo brasileiro sabem disso. É um cinema que foge. Que escapa. Que exige esforço. Tem uma liberdade que assusta. Assusta aqueles que tem medo de ficar com imagens presas em suas cabeças.
Vi três filmes brasileiros recentemente. Todos tinham locuções em off. Em nenhum ela me pareceu necessária. “Heleno”, “Bruna Surfistinha” e “Xingu”.
O off no cinema - ou melhor, no audiovisual - é uma muleta. Aquilo que as imagens não comportam vai para na voz de um narrador. Pode ser um comentário pertinente. Pode ser uma passagem de tempo. Pode ser a ironia. Pode ser uma explicação do que não foi - e nem será - mostrado. Mas nos três filmes citados a narração não preenche esses requisitos. Vira um ruído.
Os três filmes são bem resolvidos imageticamente. A história toda está ali, nas imagens, e o off fica perdido, deslocado. Minha primeira impressão é de insegurança. Os diretores filmaram certo e não confiaram no próprio trabalho, acreditaram na certeza do off. Outra possibilidade é da locução estar presente no roteiro. Desde o começo saberiam de sua existência. Mas na montagem alguém deveria ter cortado. Ei, que tal tentarmos ver o filme sem os offs? Qualquer um poderia ter sugerido. Se aconteceu, o diretor preferiu a segurança.
E aqui faço meu ponto. O cinema brasileiro vive um momento bom teoricamente. Lança filmes. Grande produções. Bons atores. Diretor em Hollywood. Mas vejo pouco tesão. A produção cinematógrafica é um Titanic, envolve leis de incentivo, captação de verba, patrocínio… e mais algumas burocracias. Isso tudo passa pro filme. Perde-se a urgência. Ganhamos a tal da profissionalização. Hoje, a famosa frase, uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, não faz mais sentido.
O off é retrato disso. O risco de não se entendido deve ser diluído. A classe C deve ser atingida. O público tem que entender, digerir e replicar. O fato de sucessos de público recente, “Cidade de deus” e “Tropa de elite”, terem locuções é a prova de que é isso que o povo quer.
Os três filmes são baseados em pessoas reais. A opção pelo off pode ter sido por isso. Ele dá credidilidade, no sentido de crer. É interessante pensar um áudio torna o filme mais ‘real’. Uma herança da época em que o cinema deixou de ser mudo, os atores falam! Em ”Heleno” e “Xingu”, vemos as imagens reais dos retrados no final do filme. O off é mais ‘real’ que a própria ‘realidade’?
Além de muleta, off é funil. O que era interpretativo, vira afirmativo. O que era dúvida, vira certeza. Isso é algo inerente. O caráter prepotente faz parte de quem conta a história. Narrador é Deus. Tem a história nas mãos e tem sempre razão. É algo poderoso. Com grande poder, vem grande responsalididade, disse Peter Paker.